Carta aberta à presidenta Dilma Rousseff

 4 de fevereiro de 2011, Dia Mundial do Câncer.

Li em O Globo de 5/02/2011, na página 13, matéria sobre o assunto.

Dados já bem conhecidos foram, mais uma vez, citados: por ano, no Brasil, 4.800 mulheres morrem por câncer do colo uterino e mais 18.430 mulheres são acometidas do mesmo mal.

Para se fazer um paralelo, pode-se lembrar que a grande tragédia que castigou a região serrana do estado do Rio neste mês de janeiro totalizou, entre mortos e desaparecidos, menos da metade  das 4.800 mortes causadas pelo câncer de colo uterino.

Vale destacar um aspecto importante em relação a estes números: o câncer de colo uterino mata este número de mulheres (cerca de 5.000), anualmente, há décadas.

Em outro ponto da matéria, lê-se: “O câncer tem atingido cada vez mais a população jovem. Mudanças de hábitos podem fazer as pessoas saírem do grupo de risco... No entanto, o diagnóstico precoce e o acesso ao tratamento são fundamentais.”

Esta informação fez-me lembrar do Plano de Ação para a Redução da Incidência e Mortalidade por Câncer de Colo de Útero (disponível em: http://www1.inca.gov.br/inca/Arquivos/sumario_colo_utero_versao_2011.pdf), lançado no final de novembro de 2010. A página 8 deste documento inicia-se assim: “O Programa Nacional de Controle do Câncer de Colo de Útero no Brasil baseia-se na detecção precoce deste câncer em mulheres assintomáticas, processo conhecido como rastreamento ou screening.”

Em nenhum momento deste documento, deixa-se claro que o câncer de colo de útero tem o HPV como o seu elemento básico e que este agente infeccioso é, primariamente, uma doença sexualmente transmissível. Logo, como uma DST, o uso de preservativos, durante as relações sexuais, diminui sensivelmente sua transmissibilidade.

Neste documento, o câncer de colo de útero é, equivocadamente, dissociado de outras doenças causadas pelo mesmo HPV, tais como: condiloma acuminado, neoplasias intraepiteliais/câncer de vulva, de vagina, de ânus, de pênis, papilomatose respiratória recorrente, entre outras enfermidades.

A relação entre atividade sexual e câncer do colo do útero não é um pensamento novo. Em 1842, dois médicos de Verona, Stern & Rigoni, já citavam que este câncer era transmitido por via sexual, pois, em suas pesquisas, constataram que a doença era rara em mulheres virgens e freiras, ao se comparar com os índices entre mulheres casadas e viúvas.

A documentação por via molecular da associação de HPV e câncer do colo uterino tornou-se realidade na década de 1980.

Em 2008, o médico alemão Harald zur Hausen foi laureado com o Prêmio Nobel de Medicina por suas pesquisas em câncer de colo uterino e o envolvimento de HPV.

No entanto, muitas “autoridades” da área da saúde pública brasileira ainda não se deram conta da associação entre HPV/DST e cânceres, além de outras tantas doenças causadas por HPV. Ainda assim, muitos dos que negam a vacinação contra HPV entre a população que mais necessita deste cuidado, a atendida pelo SUS, não hesitam em vacinar seus entes queridos e indicar o procedimento para as clientes de clínicas privadas.

Até mesmo os exemplos de países como Austrália, Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha, Itália, Espanha, Suíça, Portugal, Áustria, Noruega, Dinamarca, Suécia, México são ignorados por aqueles que têm o poder de compor comissões na área. Pesquisadores da Austrália, por exemplo, publicam há dois anos o impacto da vacinação contra HPV na população jovem daquele país.

Enquanto o mundo já trabalha com a prevenção primária há anos, ou seja, evitar a infecção pelo HPV na população jovem, preferencialmente antes do início da atividade sexual, documentos do Ministério da Saúde do Brasil insistem em ter como objetivo apenas a detecção precoce do câncer. Ou seja, da lesão precursora ou da doença já instalada. As duas ações não são excludentes, pelo contrário, se fortalecem. Até porque, infelizmente, já existem milhares e milhares de pessoas infectadas pelo HPV que, em breve, desenvolverão lesões pré-neoplásicas e neoplásicas.

Enquanto o mundo investe de forma pesada em prevenção, no Brasil, 80% do orçamento do Ministério da Saúde são para pagar tratamento de doenças.  

Por que esta carta dirigida à presidenta da República Federativa do Brasil, senhora Dilma Rousseff? Porque os técnicos até agora não conseguiram dar respostas eficientes à questão das doenças sexualmente transmissíveis.

Tenho convicção de que uma decisão política da parte de uma mulher que tem discursado sob a égide de inovação, eficiência técnico-administrativa, fortalecimento das ações em ciência e tecnologia, buscando o avanço na equidade dos direitos da mulher pode liderar a mudança no entendimento de que a prevenção primária é o objetivo básico para a redução (quiçá, eliminação) da incidência de cânceres causados por HPV, da infecção e suas complicações (incluindo o hepatocarcinoma), do vírus da hepatite B e demais DSTs. 

Finalmente, uma última reflexão, pois já me estendo. O Departamento Nacional de DST, AIDS e hepatites virais tem Comitê Assessor de Vacinas, mas não é possível identificar atividades que não sejam exclusivas para HIV. A vacinação na rede pública (SUS) contra hepatite B é restrita a pessoas até 24 anos. Acima desta idade, só será possível, caso a pessoa seja classificada com “lésbica, bissexual ou transgêneros” (http://www.aids.gov.br/node/40143). Logo, quem se disser heterossexual estará fora do grupo a ser vacinado.

O Dia Internacional da Mulher (8 de março), neste ano, coincide com o Carnaval. É possível que os eventos de empoderamento das mulheres se percam no meio da sensualização feminina, tão explorada pela mídia, nesta época. Assim, como uma forma de realmente celebrar esta data, a presidenta Dilma Rousseff poderia abrir o Congresso da Sociedade Brasileira de DST, no dia 18 de maio de 2011, em Curitiba, onde o tema central a ser debatido será “O impacto das DSTs na mulher”.  

 

Niterói, 7 de fevereiro de 2011.

 

Mauro Romero Leal Passos

Professor associado chefe do Setor de DST da

Universidade Federal Fluminense